A palestra do professor Luiz Marques, referência nacional no debate sobre crise ambiental e modelos de desenvolvimento, abriu o Curso de Verão 2026, em sua 39ª edição. Professor livre-docente aposentado e colaborador do Departamento de História do IFCH-Unicamp, atualmente professor sênior da Ilum Escola de Ciência do CNPEM, Marques é autor de obras como Capitalismo e Colapso Ambiental e integrante de coletivos voltados à reflexão crítica sobre os rumos da sociedade contemporânea. Sua exposição, que ocorreu nos dias 07 e 08 de janeiro, ofereceu uma leitura ampla, fundamentada em dados científicos e análises históricas, sobre os desafios socioambientais que atravessam o mundo atual.
Luiz Marques pontua logo no início de sua fala que estudos amplamente reconhecidos indicam que mais de 78% das alterações climáticas observadas são de origem antropogênica, ligadas sobretudo ao uso intensivo de combustíveis fósseis, à expansão do consumo e à lógica de crescimento ilimitado que se consolidou ao longo do século XX.
Segundo o professor, “desde a década de 1950, o consumo global se multiplicou em ritmo acelerado, criando uma pressão inédita sobre os ecossistemas do planeta”.
Partindo desse diagnóstico, Luiz Marques apresentou dados sobre o desmatamento, especialmente na Amazônia, ressaltando que centenas de milhões de árvores foram derrubadas em poucos anos, sobretudo para atender à expansão da pecuária e de grandes projetos econômicos. Esse processo, aliado ao aumento das queimadas, compromete a capacidade de regulação climática das florestas, reduz a biodiversidade e intensifica eventos extremos, como secas prolongadas e enchentes de grande escala.
E o professor fez uma observação importante que provocou no grupo presente uma desconfortável constatação: “aquele bife no seu prato é responsável por cerca de 40% do desmatamento; portanto, os nossos hábitos de consumo dizem muito do que sustentamos, legitimamos e perpetuamos como modelo de sociedade e de relação com a natureza”.
“O padrão de vida prometido no século XX não poderá ser mantido no século XXI. Será necessário abrir mão do petróleo, o que representa um grande desafio, mas também uma oportunidade para repensar e desenvolver novas fontes de energia. O modelo de consumo excessivo que adotamos não pode continuar. É fundamental compreender que a terra, a educação e os bens comuns precisam ser democratizados para garantir condições de vida dignas para todos”.
Outro ponto central da exposição foi a relação entre colapso ambiental e desigualdade social. O professor enfatizou que os efeitos das mudanças climáticas não se distribuem de forma igualitária. Populações indígenas, comunidades tradicionais, moradores de periferias urbanas e pessoas em situação de vulnerabilidade são as mais afetadas pela escassez de água, pela insegurança alimentar e pelos deslocamentos forçados. Para Marques, esse cenário evidencia que a crise ambiental é também uma crise social e política, profundamente ligada a um modelo econômico que concentra riqueza e externaliza seus custos humanos e ambientais.
Luiz Marques chamou atenção ainda para a dimensão civilizatória da crise. Em sua análise, o capitalismo contemporâneo promove a mercantilização da vida e da natureza, tratando rios, florestas e territórios como recursos infinitos. Essa lógica, segundo ele, “entra em choque direto com os limites físicos do planeta e produz um cenário de esgotamento ambiental e sofrimento humano. A palestra destacou que, sem uma mudança estrutural no modo de produzir, consumir e organizar a vida social, as respostas técnicas ou pontuais serão insuficientes para conter o agravamento da crise climática”.
Apesar do diagnóstico rigoroso, a fala não se restringiu à denúncia. Luiz Marques apontou a importância das iniciativas de resistência e de construção de alternativas, muitas delas já em curso em diferentes partes do mundo. Experiências agroecológicas, economias solidárias, movimentos sociais, articulações comunitárias e alianças entre saberes tradicionais e ciência crítica foram citadas como exemplos de caminhos possíveis para enfrentar o colapso ambiental. Para o professor, essas práticas demonstram que é viável construir formas de vida baseadas na cooperação, no cuidado e no respeito aos ciclos da natureza.
No contexto do Curso de Verão 2026, a palestra dialogou direta e profundamente com o apelo ao “Compromisso Social e Inter-Religioso com o Bem-Viver”, proposto em seu tema central. O professor ressaltou que enfrentar a crise climática exige não apenas políticas públicas e mudanças tecnológicas, mas também uma transformação ética e cultural. Nesse sentido, “o encontro entre diferentes tradições de pensamento, espiritualidades e práticas comunitárias torna-se fundamental para sustentar processos de mudança de longo prazo”.
“A religião, como experiência de transcendência, nos lembra que algo maior precisa ser realizado: ressignificar o valor do mundo e da vida, reconhecendo sua dignidade e interdependência”. Ao enfatizar o papel das religiões, o professor cita a Laudato Sì, encíclica do papa Francisco publicada em 2015, cujo título significa “Louvado Sejas” e que constitui um apelo urgente à humanidade para cuidar da “casa comum”, o planeta Terra, diante da crise socioambiental. Para o professor, trata-se de um dos documentos mais contundentes já produzidos sobre esse tema.
A abertura com a palestra de Luiz Marques lançou bases sólidas para os dias do Curso de Verão, e ofereceu aos participantes elementos históricos, científicos e políticos para compreender a gravidade do momento atual, assim como reforçou a necessidade de articulação coletiva e de compromisso contínuo com a justiça socioambiental, e leva todas e todos a refletirem sobre o papel de cada um na construção de caminhos mais justos, solidários e sustentáveis já no presente.
Renata Garcia
Equipe de Comunicação
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