Espaços de encontro, expressão, escuta, troca e aprofundamento em grupos menores do conteúdo trabalhado nas palestras das manhãs, as tendas ocupam um lugar importante nas vivências do Curso de Verão. Elas possibilitam uma participação mais próxima e afetiva. Ali, a palavra circula e abre caminho para relatos mais detalhados de experiências, práticas artísticas, reflexões coletivas e vivências corporais.
Distribuídas em diferentes temas — “arte e espiritualidade do cotidiano”, “poesia prática e política”, “mística, arte e educação popular”, “arpilheras”, “pedagogia ecológica indígena”, “retalhos da história do povo negro”, “comunicação e solidariedade”, “música”, “dança circular”, “dança e identidade” — as tendas acolhem uma diversidade de linguagens, saberes e trajetórias e propõem um modo próprio de aproximação ao tema central do Curso de Verão 2026, articula espiritualidade, justiça ambiental e compromisso com o bem viver a partir do cotidiano e das realidades concretas dos participantes.
A escolha simbólica das tendas dialoga com a tradição antiga do povo bíblico, na qual ela é abrigo provisório, mas também, sinal de caminho, de travessia e de relação viva com Deus. Representa abertura ao encontro e disposição para recomeçar. Expressa a presença divina que caminha com o povo, sem se fixar em estruturas definitivas. Essa poética atravessa também as tendas do Curso de Verão: espaços leves, abertos, onde ninguém ocupa o centro sozinho e tudo acontece no encontro.
Anderson Augusto, monitor da tenda “Arte e Espiritualidade do Cotidiano”, destacou que a proposta é criar um espaço de liberdade e criatividade, que rompa com a ideia de que a arte é algo distante ou reservado a poucos. Para ele, a tenda convida a reconhecer que a arte está no cotidiano, na simplicidade, no cuidado com os detalhes e na harmonia construída nas relações. “A espiritualidade precisa da expressão. A espiritualidade é a arte fundamental da vida”, afirmou, ao lembrar que a música, o silêncio, a contemplação e os pequenos gestos são caminhos de acesso ao sagrado. Segundo Anderson, resgatar a arte no dia a dia é também fortalecer uma cultura de convivência, luta e cuidado, especialmente nos espaços populares e nas ruas.
Helen Clara, 28 anos, participante da tenda “Arte e Espiritualidade do Cotidiano” ressaltou o caráter renovador dessa experiência. Para ela, a vivência na tenda a ajudou a unir esperança e prática, fé e ação concreta. Participando pela primeira vez do Curso de Verão em São Paulo, Clara contou que chegou em busca de fortalecimento interior para sua caminhada e encontrou inspiração para levar novas ideias à sua realidade local. “Cada coisa que estou vivendo aqui me faz pensar no meu povo, no que podemos fazer juntos”, e destacou a importância de aprender, ouvir e transformar em diálogo com as comunidades.
Chico Machado, de São Félix do Araguaia (MT), participante da tenda “Poesia: Prática e Política”, pontuou que a temática do curso responde a uma urgência do nosso tempo. Segundo ele, a crise ambiental e o cuidado com a casa comum são parte constituinte do cotidiano de muitos povos, especialmente os indígenas, que historicamente defendem a terra e a floresta. Chico destacou a esperança que nasce do encontro entre gerações, culturas e países. A presença de jovens e de participantes vindos do continente africano, do Peru, e tantas outras regiões do planeta, que, segundo ele, ampliou o horizonte das trocas e fortaleceu o sentido de rede e compromisso coletivo.
Ao longo dos dias, cantar, bordar, dançar, escrever, refletir e silenciar foram gestos igualmente importantes. A pluralidade de linguagens permitiu que cada pessoa encontrasse um modo próprio de expressão e participação. Respeitando tempos, histórias e sensibilidades, as tendas materializaram a pedagogia popular que valoriza o corpo, a memória, a cultura e o território como fontes legítimas de conhecimento.
O dia 15.01, foi o último dia de atividades nas tendas. Naqueles espaços, pessoas se reuniram, debateram, cantaram e se expressaram de múltiplas formas. Agora é tempo de recolher as tendas, sabendo que elas não se encerram ali. Levam consigo as experiências vividas, os vínculos criados e as sementes lançadas. Seguem para outros cantos, para novas comunidades e encontros, com o propósito de continuar semeando amor, justiça e bem viver no chão da vida cotidiana.
Texto: Renata Garcia
Fotos: Alderon Costa, Luciney Martins (@lucineymartins), e Renata Garcia
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