Na tarde de domingo, 11/01, o padre Júlio Lancellotti recebeu os participantes do Curso de Verão 2026 para um bate-papo marcado por reflexões sobre fé, compromisso social e resistência. Em sua fala, o padre destacou a importância de aprender a ser minoria em um mundo que frequentemente marginaliza aqueles que defendem os mais vulneráveis. “A cabeça pensa onde os pés pisam”, afirmou, ressaltando que os desafios enfrentados por ele e por outros que atuam junto à população em situação de rua são semelhantes aos vividos pelas Comunidades Eclesiais de Base e por diferentes grupos que caminham ao lado dos descartados da sociedade.
Segundo Lancellotti, a defesa dessas pessoas não se dá por critérios morais ou meritocráticos, não por serem bons, mas por serem descartados. “O sistema de Deus não é meritocrático. Deus não faz distinção de pessoas, seu amor é para todos”, reforçou. Para ele, o amor precisa ser concreto: se alguém tem sede, é preciso oferecer água; se tem fome, oferecer alimento. Nesse sentido, a defesa da dignidade humana torna-se o eixo que deve unir diferentes grupos, pois a fome, a desigualdade e a exclusão continuam matando diariamente.
Ao abordar o tema do Curso de Verão 2026, “Justiça Ambiental: Compromisso Social e Inter-Religioso com o Bem-Viver”, o padre foi enfático ao afirmar que não existe justiça ambiental sem justiça social. Para ele, a crise climática é resultado direto do rompimento humano com o bem comum, alimentado por uma lógica neoliberal que prioriza o lucro, estimula o individualismo e aprofunda desigualdades. Um dos grandes desafios do tempo presente, segundo Lancellotti, é compreender como a narrativa dos grupos dominantes consegue fazer com que os oprimidos passem a pensar segundo a lógica dos opressores, numa imagem que remete à “senzala pensando como a Casa Grande”.
O padre também destacou que a história segue um curso próprio, independente das intenções individuais. “Não colheremos os frutos das sementes que estamos plantando”, afirmou, apontando para a necessidade de compromisso mesmo sem garantias de resultados imediatos. Questionado sobre os silenciamentos e resistências que enfrenta, explicou que eles nascem do conflito de interesses e da “inconveniência” de denunciar injustiças, de se dizer o certo, mas não na hora ou lugar certos”, brinca. Mas Lancellotti lembrou que essa mesma experiência marcou a trajetória de Dom Oscar Romero, Dom Pedro Casaldáliga e do próprio Jesus.
Após a conversa, padre Júlio presidiu a Celebração Eucarística que foi concelebrada pelo padre Carlos P. da Silva. Na homilia, ele refletiu sobre o significado do Batismo de Jesus nos dias de hoje, destacando-o como um compromisso do seguimento ao Cristo que “abre os céus para todos”, elimina fronteiras e méritos, e proclama que o Reino de Deus é universal. “A água e a terra são para todos”, enfatizou.
Padre Júlio Lancellotti relacionou a crise climática à negação do amor e da beleza de Deus, afirmando que a cruz é consequência de um amor vivido até as últimas consequências. Segundo ele, é preciso força e coragem para sustentar esse amor em um mundo marcado por injustiças, mas é exatamente nesse caminho que se constrói fidelidade ao Evangelho de Cristo e se promove o Bem-Viver.
Texto e fotos: Renata Garcia
Equipe de Comunicação





